Enter: a startup brasileira de IA que virou o primeiro unicórnio de IA da América Latina
Em maio de 2026, a Enter se tornou a primeira startup de inteligência artificial da América Latina avaliada em mais de US$ 1 bilhão, após uma rodada Série B de US$ 100 milhões liderada pelo Founders Fund (fundo de Peter Thiel), com participação de Sequoia, Ribbit, Kaszek, ONEVC e Atlantico. O valuation de US$ 1,2 bi mais que triplicou a marca de US$ 350 mi de 12 meses antes. Em 18 de agosto, a empresa anunciou em parceria com a OpenAI um programa nacional de letramento em IA para profissionais do Direito, com meta declarada de alcançar 1 milhão de profissionais. Este post explica o que a Enter faz, quem está por trás, e o que o caso diz sobre o estágio do mercado de legaltech no Brasil em 2026.
1. O que é a Enter e o que ela faz
A Enter é uma legaltech fundada em setembro de 2023 em São Paulo, dedicada a automatizar partes do contencioso empresarial de massa — o volume de processos repetitivos que ocupa departamentos jurídicos de grandes empresas, em áreas cível e trabalhista. A empresa usa agentes de IA para cobrir o ciclo completo de um processo: cadastro da ação, leitura de petições, análise de contratos, transcrição de áudios e vídeos, interpretação de decisões e sugestão de minutas para a defesa G1, 23/08/2026.
A plataforma realiza mais de 30 verificações automáticas em cada arquivo, com o objetivo declarado de identificar padrões de litigância abusiva: ações repetidas (litispendência), adulteração de documentos e atuação coordenada entre litigantes que se organizam para explorar brechas em empresas G1, 23/08/2026. A tecnologia não substitui o advogado: ela organiza o material bruto e entrega uma primeira versão da análise, revisada por humanos antes de qualquer ação.
A página de carreiras da Sequoia resume o produto: os agentes apoiam advogados em intake do caso, detecção de fraude, recomendações de acordo, redação de defesas e interpretação de decisões ao longo de todo o ciclo Sequoia Careers, 2026. Entre os clientes anunciados estão Mercado Livre, Azul e Magalu Bloomberg Línea, maio/2026, três empresas com contencioso de massa relevante em logística, aviação e varejo.
A escolha do recorte importa. A Enter não concorre em pesquisa jurídica generalista (Jusbrasil, Jus IA), nem em gestão de escritório (Doc Jus, Legal Labs, Projuris). Ela mira o volume de processos repetitivos que entram todo mês contra o mesmo CNPJ, vindos de litigantes profissionais. A missão declarada é automatizar processos críticos para grandes empresas, começando pelo jurídico Sequoia Careers, 2026.
2. Os fundadores e a virada em direção à tecnologia
A Enter foi fundada por Mateus Costa-Ribeiro, Michael Mac-Vicar e Henrique Vaz, todos com passagem por empresas e escolas de primeiro escalão. Costa-Ribeiro é advogado, ex-integrante do escritório Milbank em Nova York, e tem MBA pela Stanford — onde, segundo publicação do CEO no LinkedIn, tomou a "decisão mais importante" da vida ao pedir demissão para trabalhar com tecnologia G1, 23/08/2026. Na época da fundação, em 2023, ele tinha 23 anos.
Mac-Vicar e Vaz vêm da Wildlife Studios, uma das maiores desenvolvedoras de games mobile do Brasil, onde foram CTO e CMO, respectivamente. Vaz é formado em Harvard InfoMoney, maio/2026. A combinação de um advogado com background em escritório global e dois operadores com experiência em produto de larga escala é uma das marcas registradas do time fundador.
Em entrevista, Costa-Ribeiro resumiu a lógica: "a composição foi pensada como uma aliança estratégica com players relevantes de IA" InfoMoney, maio/2026. Não são fundos só com capital — são fundos com acesso a modelos, infraestrutura e clientes que ajudam a treinar e validar produto. A Sequoia, por exemplo, é investidora também da Harvey, maior legaltech do mundo em valuation, avaliada em US$ 11 bi em março de 2026 Press.farm, 2026.
3. A linha do tempo do funding: como a marca de US$ 1,2 bi foi construída
Série A — maio de 2025. A Enter captou US$ 35 milhões em rodada coliderada por Sequoia Capital e Founders Fund, com ONEVC e Atlantico. Valuation: US$ 350 milhões — a maior captação de uma startup nativa em IA na América Latina até então Bloomberg Línea, maio/2025.
Série B — maio de 2026. Um ano depois, nova rodada de US$ 100 milhões, agora Série B, novamente liderada pelo Founders Fund (Sequoia passou a participante). Entraram a Kaszek e a Ribbit Capital, gestoras com forte presença em fintech e serviços financeiros, onde o contencioso de massa pesa no P&L. Valuation: US$ 1,2 bilhão, mais que o triplo da marca anterior Bloomberg Línea, maio/2026 InfoMoney, maio/2026.
O salto em 12 meses — de US$ 350 mi para US$ 1,2 bi — multiplicou o valuation por 3,4x, mostrando que a tese de agentes de IA aplicados a contencioso vingou com os investidores. A meta declarada pela empresa passou a ser "fazer do Brasil um líder global em IA" Sequoia Careers, 2026.
4. O programa de letramento com a OpenAI (18 de agosto de 2026)
Em 18 de agosto de 2026, durante evento da OpenAI no Brasil, a Enter anunciou em parceria com a empresa um programa nacional de letramento em IA para profissionais do Direito, com meta declarada de alcançar 1 milhão de profissionais do setor jurídico brasileiro Época Negócios, 18/08/2026. A formação combina uso do ChatGPT com treinamento sobre aplicação responsável, ética e segura da tecnologia.
Costa-Ribeiro foi explícito: "estamos lançando um programa de letramento que não tem nenhum propósito comercial" Época Negócios, 18/08/2026. A leitura provável: com a marca de unicórnio consolidada, a empresa investe em expandir a base instalada de profissionais habilitados a usar IA, criando externalidade positiva para o ecossistema — e fortalecendo a posição da OpenAI no Brasil.
O programa ainda não tem data de início nem cronograma de inscrições definido. Para um escritório brasileiro em 2026, vale acompanhar: participar pode ser uma porta de entrada para uso de IA com curadoria, em um momento em que o uso sem governança (peças com jurisprudência fabricada) segue sendo problema real LexSuite, 2026.
5. Por que o Direito brasileiro virou um case global
Três fatores formam o terreno fértil para legaltech baseada em IA no país.
Volume de processo. O Brasil tem mais de 100 milhões de ações ativas no Poder Judiciário Inspira, 2026. Para empresas com grande exposição a contencioso de massa — varejo, aviação, telecom, bancos, fintechs — existe um volume grande e repetitivo de trabalho automatizável.
Mercado endereçável. O mercado brasileiro de serviços jurídicos foi avaliado em US$ 18,5 bilhões em 2025, com projeção de US$ 27,5 bi até 2034 Badini, 2026. O latino-americano de legaltech chegou a US$ 1,9 bi em 2025, com projeção de US$ 4,9 bi até 2034.
Adoção acelerada. Pesquisa de 2026 apontou que 76% dos profissionais do Direito brasileiros já utilizam alguma ferramenta de IA, contra 54% dois anos antes Badini, 2026. A OAB-SP registra mais de 55% dos advogados paulistas usando IA generativa Legal Control, 2026. A tecnologia deixou de ser experimental.
O Brasil saiu da posição de importador de legaltech para a de formador de teses de produto — onde Enter, LawAgent, Legal Labs, V e Doc Jus disputam um mercado regional. A Harvey mostrou o teto global (US$ 11 bi em março de 2026); a Enter mostra que há caminho brasileiro até ele.
6. O que isso muda para advogados, escritórios e PMEs
Três efeitos práticos já são visíveis em 2026.
O contencioso de massa muda de economics. Setores que perdiam guerras de desgaste em juízo (varejo, telecom, bancos) passam a ter um custo de defesa menor por processo. A IA não ganha a causa sozinha, mas reduz o custo unitário de cada peça, mudando o cálculo de acordo versus litigar até o fim. Em áreas com volume, é uma transformação estrutural.
O uso da IA na advocacia deixa de ser exceção. Pesquisa da OAB-SP mostra que mais de 55% dos advogados paulistas já usam IA generativa Legal Control, 2026. Escritórios que não usam IA estão em desvantagem crescente. A conta simples: se o escritório A entrega uma petição em 8 horas e o B entrega em 40 minutos usando IA com revisão humana, a diferença vira preço, prazo e qualidade de vida do advogado.
Para PMEs e departamentos jurídicos menores, a barreira de entrada cai. A Enter vende como SaaS para grandes empresas, mas a existência de uma camada mais robusta de legaltech — Jus IA do Jusbrasil, Inspira, Legal Labs — empurra o mercado para preços mais baixos e funcionalidades melhores. PMEs que não compravam software jurídico passam a comprar.
7. Riscos e o que observar
Três pontos de atenção valem ser registrados.
Concentração em poucos clientes. Mercado Livre, Azul e Magalu são os clientes confirmados Bloomberg Línea, maio/2026. A dependência de poucas grandes contas é um risco clássico em SaaS B2B. Se uma reduzir volume, o impacto sobre ARR é desproporcional.
Regulação da advocacia e da IA. O PL 2338/2023 (Marco Regulatório da IA no Brasil) segue tramitando no Congresso após as eleições de outubro. A Resolução CFM 2.454/2026 entrou em vigor em 26 de agosto de 2026 apenas para medicina, mas a OAB e conselhos regionais discutem resolução equivalente para uso de IA na advocacia. O teto regulatório é incerto até 2027. A Enter, que opera com sugestão sob revisão humana, está em zona confortável.
Ética no uso de IA em peças jurídicas. A LexSuite aponta que 2026 é o ano em que o mercado entrou na fase de aplicação responsável após casos de advogados que submeteram petições com jurisprudência fabricada LexSuite, 2026. A regra que se consolidou: IA como camada assistiva, com rastreabilidade de cada saída e governança interna nos escritórios.
Considerações finais
A entrada da Enter no clube dos unicórnios de IA confirma que o Brasil tem empresa, tecnologia e capital para construir, localmente, plataformas de IA jurídica com ambição regional — e que fundos como Sequoia, Founders Fund e Kaszek apostam nessa tese.
Para um escritório ou departamento jurídico brasileiro em 2026, a lição é direta: usar IA deixou de ser diferencial e virou requisito operacional. O programa de letramento com a OpenAI anunciado em agosto é um caminho público para responder essa pergunta — vale acompanhar.
O GetBio Blog segue cobrindo as viradas da IA no Brasil com fontes primárias, números verificados e sem hype. Acompanhe os próximos posts.
Fontes consultadas
- Enter: o que faz a startup brasileira de IA que se tornou unicórnio e já vale US$ 1,2 bilhão — G1, 23/08/2026
- Por que a Enter, primeiro unicórnio brasileiro de IA, criou um programa de letramento na tecnologia para profissionais do Direito — Época Negócios (Globo), 18/08/2026
- Rodadas da semana: Enter se torna a 1ª startup unicórnio de IA da América Latina — Bloomberg Línea, maio/2026
- Startups: Quem é a Enter, unicórnio brasileiro de IA do setor jurídico — InfoMoney, maio/2026
- Rodadas da semana: startup brasileira Enter atrai Sequoia e capta US$ 35 mi (Série A) — Bloomberg Línea, maio/2025
- Software Engineer Jobs at Enter — Sequoia Capital Careers, 2026
- Principais players do setor de legaltechs no Brasil em 2026 — Inspira
- Legaltech no Brasil em 2026: o que mudou, o que está vindo e o que fazer agora — Legal Control, 2026
- A Revolução Silenciosa da Legal Tech no Brasil — André Badini, 2026
- Tendências Legaltech Brasil 2026: O Que Esperar — LexSuite